Por que investimentos em saúde no trabalho muitas vezes não chegam

Por que investimentos em saúde no trabalho muitas vezes não chegam
01 May, 2026 by Maria Kliesch

Hoje, a maioria das empresas investe em saúde mental, treinamento de resiliência e bem-estar dos colaboradores. Ao mesmo tempo, as pessoas são treinadas para usar cada vez mais ferramentas digitais. Quase ninguém percebe o quanto essas duas coisas estão conectadas.

As empresas têm boas intenções. Atualmente, 91% das lideranças de RH planejam investir mais dinheiro na saúde mental de seus colaboradores (Wellable Employee Wellness Industry Trends, 2024). Também parecem convencidas das medidas implementadas: 70% das lideranças acreditam que sua oferta funciona, mas apenas cerca de um terço dos colaboradores confirma uma melhora real no bem-estar. Isso representa uma lacuna de percepção de quase 35 pontos percentuais. Embora exista consciência sobre a relevância da saúde no ambiente de trabalho, há claramente uma grande discrepância entre a eficácia percebida dessas medidas por empregadores e por colaboradores.

Essa lacuna não é abstrata, ela tem consequências mensuráveis. Na Suíça, a proporção de trabalhadores estressados aumentou de 18% para 23% em dez anos e, pela primeira vez desde o início da medição, mais de 30% se sentem emocionalmente esgotados (BFS / Gesundheitsförderung Schweiz, 2022). Hoje, 82% dos colaboradores são considerados em risco de burnout, não porque já estejam esgotados, mas porque podem chegar a esse ponto (Mercer Global Talent Trends, 2024). Entre a Geração Z e os millennials, o pico de burnout é alcançado aos 25 anos, 17 anos antes da média da população. Os investimentos aumentam e o esgotamento também. Falta algo nessa conta.

A solução? Muitas vezes recorremos a ferramentas digitais para combater problemas de saúde mental. Um meta-review da PMC, "Digital Wellness Programs in the Workplace" (2025), constatou que a grande maioria das revisões (93%) se concentrava na eficácia de ferramentas digitais para programas de saúde. Foram analisados aplicativos de meditação, wearables de monitoramento de atividade e sites de psicologia positiva. O que quase não é estudado, porém, é a mídia digital no próprio ambiente de trabalho como elemento direto do bem-estar digital. E já existe evidência empírica suficiente de que o tecnoestresse, uma forma de estresse causada pelo uso ou pela adaptação às tecnologias de informação e comunicação, é mensurável e tem efeitos de grande alcance sobre produtividade e saúde.

Da digitalização, espera-se constantemente apenas ganhos de produtividade: e-mails são mais rápidos que cartas, chats no Teams são mais rápidos que e-mails, o Copilot escreve respostas mais rápido que pessoas. Mas será mesmo mais eficiente quando recebemos 117 e-mails e 153 mensagens no Teams por dia (Microsoft's Work Trend Index, 2025)? Pelo contrário. A pesquisa mostra repetidamente que o tecnoestresse reduz a produtividade de forma mensurável, e empresas que não gerenciam o estresse induzido digitalmente não conseguem realizar os ganhos de produtividade esperados com a digitalização (Nastjuk et al., 2023). Quem deve ser produtivo precisa, antes de tudo, ser saudável.

E aqui está o problema central. Nossa saúde sofre muito quando a mídia digital ocupa espaço demais no trabalho. Revisões sistemáticas mostram que "techno-invasion" (a expectativa de estar disponível fora do horário de trabalho) e "techno-overload" (tarefas digitais demais ao mesmo tempo) são os estressores mais citados em ambientes de trabalho digitalizados (Pothuganti, 2024). Consequentemente, também há muita evidência da relação entre tecnologia e sintomas de esgotamento. Sobrecarga de informação, sobrecarga de comunicação digital e medo de perder algo no ambiente de trabalho digital são fatores de risco independentes para exaustão e burnout (Soomro et al., 2025; Marsh et al., 2024).

No caso das crianças, já existe consenso sobre os riscos e perigos do consumo digital excessivo. Já os adultos no mercado de trabalho ainda enfrentam várias horas diárias de tela, monitoramento constante de múltiplos canais de comunicação, reuniões virtuais em sequência e treinamentos frequentes de TI para novos softwares. De uma criança, pode-se tirar o tablet; os colaboradores mal conseguem se proteger sozinhos.

O que isso exige não é mais uma ferramenta. Exige um entendimento compartilhado sobre o que o estresse digital provoca no cotidiano de trabalho e uma cultura de liderança que não apenas pregue equilíbrio digital, mas o pratique. É exatamente aí que atuamos: com consultorias, workshops e implementação concreta de medidas que se ajustam à realidade da sua empresa.